segunda-feira, 28 de setembro de 2015

CONTROL









Control  - A História de Ian Curtis, não é um filme apenas para fãs da banda inglesa Joy Division, mas para todos aqueles que apreciam uma boa película biográfica.  Na verdade, apesar de tratar da banda, o filme centra-se na figura depressiva do vocalista Ian Curtis. Numa trajetória meteórica e velocíssima, Curtis imprimiu ao rock inglês um espírito existencialista que até então não se encontrava presente nas músicas dos jovens de sua época. Isso é tão verdade, que o filme abre com Curtis (Sam Riley) questionando-se alguns elementos que compõem o caráter existencialista. “A existência... bem... o que importa? Eu existo da melhor forma possível. O passado, agora, faz parte de meu futuro. O presente está fora de controle”.

O filme, dirigido por Anton Corbjin foi filmado inteiramente em preto e branco, o que elevou à estética e acentuou o caráter nostálgico e melancólico da película. O clima nebuloso de Manchester e seus cidadãos soturnos ganham relevância com esta escolha do diretor e o tom narrativo confessional com que o filme se desenrola – como se o próprio Curtis estivesse nos falando através de seus pensamentos suas angústias e dúvidas – além de agigantar a tristeza que foi a vida desse poeta do minimalismo inglês. Foram poucas letras deixadas por Curtis, mas todas com um alcance que impressiona por sua sinceridade e profundidade.

Control narra a trajetória do Joy Division desde o início como uma banda punk que se intitulava Warsaw até o trágico suicídio de Ian Curtis, então com 23 anos de idade em 1980. Para quem conhece a banda e assiste ao filme, parece quase impossível não ficar impressionado com a semelhança dos atores com os integrantes originais da banda. Além disso, são os próprios atores que tocam nas cenas em que a banda se apresenta. Para quem conhece a filmagem original do Joy Division tocando She´s lost Control na BBC e se depara com os atores interpretando esse momento, não há como não ficar admirado.

Mas o filme não se resume a uma versão bem feita do original. O roteiro se baseia no livro de memórias de Débora Curtis, a esposa de Ian Curtis. Ela narra o lado profissional do músico, suas crises de epilepsia (interessante notar que Curtis, vez ou outra, tinha crises epilépticas no palco e todos pensavam que era encenação e que fazia parte do show. Renato Russo, da Legião Urbana, não só se vestia idêntico a Curtis como dançava igual ao mesmo, quase como uma crise), sua infidelidade amorosa, suas depressões e, por fim, seu suicídio. Esse toque humaniza o mito e dá uma dimensão mais interessante à filmagem como um todo.

Recomendo.



quinta-feira, 23 de julho de 2015

Morning/Everning









Kieran Habden ou Four Tet – produtor e musico inglês. É um daqueles artistas que não compõe a sua trajetória por uma nota só. Muito pelo contrário, dotado de uma grande potencialidade criativa, suas obras imprimem mudanças constantes e que lhe conferem um predicado como marca essencial que está presente num tipo especial de artista; a capacidade de reinventar-se.
Suas composições reverberam o mais amplo domínio da técnica, bom gosto e uma dose de criatividade assoma-se a uma gama musical muito rica e diversificada, consagram uma magnitude ímpar. Kieran retira um sumo próprio e mescla a musicalidade em uma manifestação deveras abstrata – que cria algo diferente daquilo que é estabelecido como referencial.

Creio que o seu novo álbum lançado recentemente Morning/Evening de grande bom gosto e maturidade musical, evidencia tais particularidades. Para tanto, o álbum já bastaria por si só, por render uma sincera homenagem ao Solstício de verão; época do ano em que o sol incide com maior intensidade em dos dois hemisférios. O álbum alinha apenas duas faixas: Morning Side e Evening Side. Os dois lados somam quarenta minutos de duração. E é aí onde reside a representação e homenagem ao Solstício de verão, que marca o inicio do verão no hemisfério norte.

 Para os povos da antiguidade o que alcunha diferentes culturas efetuadas pela tradição de cultos em devoção ao sol; esotéricas, egípcias, fenícios e cosmologia grega. Os solstícios eram cultuados com uma propriedade divina ou ordem universal. O Solstício de verão determina que a duração do dia seja a mais longa do ano. Tal fenômeno era para os povos antigos a crença na permanência da luz do dia como vitória sobre a escuridão – à noite. Consequentemente a mais curta do ano, em termos de iluminação por parte do sol.

Por trás deste mundo criativo e simbólico - o primeiro lado e única faixa Morning Side. Aborda inicialmente uma pegada suave e ao mesmo tempo dinâmica, grassa uma quietude através do vocal feminino de um agudo aveludado e sonoridade oriental, adjacente a um minimalismo de variações que se articulam a novas interações mais contundentes e nos transubstanciam para um estado longevo, o som ganha propriedade em nossa mente e não mais no sentido da audição. O êxtase perpassa o segundo lado sem ruptura a linearidade e permanência que afirmam ainda mais o transcender abrigando harmonia e equilíbrio em contraparte um instigante quase cômico.

Por fim, para um artista conseguir imprimir sua marca na história de sua arte, é um fato inestimável que deve possuir acima de tudo: escuta atenta e capacidade de reinventar-se. O sol de fato decidiu abrir os olhos e iluminar por mais tempo este artista, que através do poder inigualável da música, não recua, um instante que seja. Sem duvida, um mestre.


quarta-feira, 10 de junho de 2015

Nascidos em Bordéis








Em fundamento primeiro o enredo do filme/documentário Nascidos em Bordéis trafega sobre a intervenção corajosa, da fotógrafa inglesa - Zana Briski que vai até o distrito da Luz Vermelha, Índia, doando-se ao coletivo que tinha a partir de então uma realidade incontrovertível. A intervenção da fotógrafa reside em um cenário, aonde a apropriação da infância e juventude conduz sua banalidade no sentido mais radical e violento possível. Esta banalidade erige devido a ações fomentadas no próprio seio do coletivo que perpetuam à bestialidade, à atrocidade, e crueldade.

O espanto é inevitável quando entramos em contato com a história e nos deparamos com as crianças do lugar sobre a iminência de perpetuarem gerações de garotas de programa. A iminência se dá, não apenas pela falta de oportunidade, mas pela única oportunidade e oferta de mercado vigente. O desvirtuamento justifica de maneira injustificável – toda uma geração crer neste destinamento. As crianças do distrito realizam trabalhos pesados, convivem em meio à prostituição de perto e, estão longe de usufruir de toda a virtude e liberdade dignas da infância. O próprio lugar e condição em si, já impede que isso aconteça.

No entanto as mínimas atitudes generosas podem inverter este lastro de irracionalidade. Aproximando-se através da fotografia, Zana Briski presenteia algumas crianças destacadas no filme com câmaras fotográficas. Orientadas sobre a funcionalidade básica de uma câmara, iniciam um exercício de fotografar. E nesse encontro, onde cada partilha da contemplação de seu olhar. A partir deste exercício se constrói uma interseção entre o subjetivo e realidade em que vivem.

O documentário nos obriga a meditar com acuidade numa questão desta relevância. Que ações com a da fotografa Zana Briski, fazem embrutecer o espírito da humanidade, estas ações podem permitir que os olhos vislumbrem uma saída agradável no futuro de crianças como as do distrito da Luz Vermelha. 



quinta-feira, 4 de junho de 2015

Citações










“É precisamente no terreno da ecologia que podemos delinear a demarcação entre a política da emancipação e a política do medo na sua forma mais pura. De longe, a versão predominante da ecologia é a da ecologia do medo – medo da catástrofe, humana ou natural, que pode perturbar profundamente ou mesmo destruir a civilização humana. Essa ecologia do medo tem todas as oportunidades de se converter na forma ideológica predominante do capitalismo global, um novo ópio das massas que sucede o da religião. Assume a função fundamental da religião, aquela de impor uma autoridade inquestionável que estabelece todo limite. Apesar de os ecologistas exigirem permanentemente que mudemos radicalmente nossa forma de vida, é precisamente isso que subjaz a essa exigência no seu oposto, isto é, uma profunda desconfiança em relação à mudança, em relação ao desenvolvimento, em relação ao progresso: cada transformação radical pode conter a consequência inestimada de detonar uma catástrofe. É exatamente essa desconfiança que converte a ecologia em um candidato ideal para tomar o lugar de uma ideologia hegemônica, pois faz eco da desconfiança em relação aos grandes atos coletivos".

Slavoj Žižek  in: Violência 

segunda-feira, 27 de abril de 2015

POLÍTICA: Razão instrumental- mecanismo inconsciente coletivo











O Iluminismo foi um movimento do século XVIII que alcunhava célebres pensadores como Kant, Rousseau, Newton, Voltaire, Espinosa, Locke Diderot. Uniam-se e defendiam o poder da razão como ferramenta para criticar os intoleráveis abusos da Igreja e do estado. De tal maneira a conduzir o homem a um progresso em diversos campos, objetivando o amadurecimento da sociedade. Libertando-a de preconceitos e superstições. No entanto, o projeto iluminista culmina com a Revolução Francesa e seus desdobramentos subsequentes.    
Parece-me evidente que no nosso país, se comparado com o Iluminismo, por exemplo. Saltamos do primeiro estágio (sem qualquer esclarecimento) - razão crítica, diretamente para o segundo estágio – razão instrumental, ou prática. Isso indica que quase todo o conhecimento é nivelado por baixo, por uma superfície onde a maioria dos discursos trata-se de apelos falaciosos. Em quase todas as conversas que participo e que nós brasileiros travamos sobre os problemas estruturais de nosso país só há uma causa possível, e por unanimidade nacional atestada: a corrupção. Ela logo está arraigada a base de todas as celeumas sociais que vivemos e parece explicar de uma atacada só tudo aquilo que nos impede de ser um país melhor. Creio, contudo, que a questão – seja em uma dimensão macro ou micro político e econômico – repousa em paragens bem mais profundas, em estruturas mais elaboradas e que permitem que algo como a corrupção surja: corrupção, no Brasil, se dá por efeito e não causa.
A corrupção de nossos políticos, por exemplo. Escândalos revelam-se dentro de outros, algo que não mais nos surpreende e justificam de maneira injustificável coisas que só caberiam adjetivos como biltre, pascácio, parvo.  Palavras que também caracterizam todo cidadão médio frente a está circunstância e que se sente oceanicamente distante da mesma, jamais se aventurando em terreno tão escuso – é fruto de uma estrutura econômica e política que só pode existir se a própria corrupção surgir como efeito da mesma, configurando sua própria manutenção e repetição, mesmo que de modo involuntário. A ojeriza de nossa política tão evidente possui origens mais remotas do que meros acordos de interesse. Como dizem hoje em dia: Se entra pra política por mais imaculado que seja se corromperá as más condutas.
De fato, no Brasil, a estrutura econômica é posta em marcha, partindo de uma premissa incontrovertível: beneficiar uma pequena minoria de favorecidos, a elite em sua expressão mais rasteira. Toda a produção é alicerçada a partir de dois pontos cruciais: O primeiro ponto é praticamente uma profecia MARXISTA: A propriedade privada e a possibilidade que esta fomenta para subtrair (roubar) o trabalho excedente do trabalhador em relação ao seu trabalho necessário, produzindo uma mais valia absurda (trabalho não-necessário). O trabalho necessário não consegue  na maioria de nossa população – dar conta das necessidades fundamentais dos trabalhadores. Aqui já temos a base deste fato social. O segundo ponto. O Estado que ultimamente agigantou-se de maneira desordenada e imoral taxa tudo àquilo que o trabalho necessário produz, aumentando ainda mais o fosso entre aquilo que é necessário e aquilo que o trabalho necessário consegue produzir em termos de salário. O trabalho necessário deveria ser garantidor das necessidades naturais e fundamentais de todo ser humano, como rege nossa Constituição no artigo 6, repetindo a Declaração dos Direitos Humanos que reza que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família, saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação”.  Todos sabem que na prática a história é bem diferente.
              Neste sentido, este mecanismo possui um fim ainda mais nítido e perverso. As relações preconizadas nas teorias administrativas de Drucker, Fukuyama, Senge regem o capitalismo pós-moderno. Num tempo em que politicamente correto é paranóia. Não enxergamos mais a luta de classes, os sindicatos e as greves. As relações de trabalho ficaram em segundo plano. Enquanto mantemos esta elite de parasitas numa zona confortável de riquezas e regalias, envolvendo o cidadão com uma legislação tão burocrática, mais tão burocrática que torna impossível para o mesmo se desvencilhar deste labirinto que se remodela para que não haja uma saída. E quando vem a primeiro plano é impreterível que seja desfavorável ao cidadão. Parece resumir-se a questões hermenêuticas de microfísica do poder.

             O Estado cria impostos, e são muitos – IPVA, IPTU, ICMS, IPI, etc. O cidadão precisa trabalhar quatro meses, mais trabalho excedente (não-necessário), para pagar suas contas e ter seus bens. Tantos impostos não são revertidos numa contraparte clara para beneficio do próprio cidadão, mas em aumentos de salários dos poderes legislativo, executivo e judiciário e toda a máquina que os sustenta, além de articular novas zonas de tráfego de influências através de prestações de favores que burlam esse mesmo esquema – mas só conseguem burlar esse esquema apenas duas classes de cidadão: os próprios políticos e todos aqueles que possuem acesso direto ao funcionamento da máquina. Os outros, coitados, dotados de um senso critico não apurado estão fadados ou a pagar tudo ou entrar no esquema da corrupção menor. E é aí onde entra a corrupção que categoriza-se por efeito e não causa.

                Por mais ilibado que seja um cidadão – e por maior que sejam os valores éticos que rejam a sua consciência moral. O Estado cria tantos mecanismos para dificultar sua vida que, em algum momento, ele vai ser pego com as “calças curtas”. Cria-se um inconsciente coletivo, e coercitivo de uma exterioridade que se justifica por um eufemismo do ato. Seja precedendo vantajosamente ao cidadão ou lesando-o consequentemente.  O  cidadão começa a entender de maneira inconsciente que a corrupção no Brasil é algo natural. Se necessário uma filologia, a corrupção é  nascida conosco desde os primórdios de nossas fundações. Mas essa origem colonial, na verdade, apenas indica que herdamos de Portugal uma estrutura que permite o mesmo: a corrupção se torna desejo de uma necessidade natural de realizar as nossas necessidades fundamentais. Deste modo criam-se os desejos não-naturais e não-necessários, como contra-indicava Epicuro. Desejos tais, que comprometem a convivência.  De repente, você fez amizade com a balconista da padaria e ela põe mais pães pra você.  Um funcionário da Celpe que veio cortar sua energia ou o policial que vai apreender seu. No Brasil não tem como escapar: ou se paga tudo em dias e aí haja trabalho necessário e um salário enorme – ou breve a corrupção baterá em sua porta.
Esse mecanismo inconsciente é importante para de certa forma, justificar o que as esferas superiores de nossa hierarquia social de uma elite retrógrada voltada apenas para si mesma, agem e nos roubam sistematicamente na confluência de interesses, e nos próprios por método pseudo-democrático garantimos que se perpetuem no poder. Creio que se faz necessário estipular algumas regras, ou imperativos categóricos norteados pelo dizer. Age de tal maneira a conduzir que o principio que rege a tua conduta, possa reger a conduta de qualquer um. Desde que erija de uma boa vontade.  Pois Civilização ante qualquer pretexto se traduz por acesso ao conhecimento e educação, a urbanização, ao trabalho, tecnologia,saúde  e dignidade.




Quem delira em grupo, não sabe que está delirando. Eis um mecanismo útil para o homem.  Freud


terça-feira, 7 de abril de 2015

Sobre meu Pai






Meu pai é um daqueles artistas que não compõe a sua trajetória por uma nota só. A expressão proposta por ele exige acuidade, para desvelar os meandros mais sutis da linguagem, e só ai fazer juízo de razão verdadeira. O belo desde os gregos nunca ocupou lugar numa manifestação concreta. O belo seria uma manifestação abstrata sob juízo de quem contempla, uma terça expectativa a forma estética.

O velho Jeffson faz um mergulho profundo em sua alma e de lá traduz uma impressão indelével. Nos coloca em um universo paralelo e subjetivo que, apesar de toda a sua estranheza e abstração, nos convida o tempo todo a uma meditação sobre a nossa própria realidade, já que nesse encontro se constrói uma intersecção entre o aqui e o além.

A polaridade advém das formas desordenadas, a natureza peculiar e única, nos conduz para onde o oposto se faz presente. Papel fundamental em seu processo criativo. As vezes me pego na incumbência meditando em suas obras, e questiono de onde vem tal profundidade ? Algo que aparenta total desordem, na verdade ocupa um papel fundamental para a organização.

Recentemente fui ao aniversário de um grande amigo, qual sempre esqueço a data e vice-versa. Nesta celebração seu irmão mais velho e também meu grande amigo, dotado de uma barba exuberante João Carlos Veloso,me convidou para ouvir um som. Se chamava Dave Brubeck - Take Five. Um quarteto de Jazz. A primeira música, já definia uma impressão imorredoura, fixava a minha relação duradoura aquela proposta musical. Em recíproca o mostrei uma das obras do meu pai. Das mais abstratas. Por coincidência a capa do Álbum do quarteto de jazz, era composta por uma forma abstrata, a estreita uma geometria de traços cubistas, e colorida que se assemelhava com a pintura que eu havia mostrado. Em seguida entendemos que aquele abstrato nas pinturas, se parecia com Jazz, uma desordem que apenas coma escuta atenta e apreciação repetitiva, se consegue por uma ordem.

Está interpretação dedico a ti.
Obras de mãos que tremem.

segunda-feira, 6 de abril de 2015

Eterno Retorno - Uma questão teológica











O que Nietzsche quer dizer com “Deus está morto”, erige de um trecho que ele chama do Eterno Retorno.  Sua inquietação em primazia indagava qualidade de vida e o poder divino.
- Imagine se um dia você está em casa e surgi uma entidade. Você não a identifica por demoníaca ou divina, e está entidade lhe diz o seguinte – Vim lhe fazer uma grande revelação: Tudo isso que você viveu, tudo que está vivendo, tudo que vai viver. Irá se repetir eternamente. Em um livro póstumo chamado Vontade de Potência, Nietzsche diz o seguinte: Se o universo é uma quantidade de energia limitada, como que é hoje a física quântica. O universo está em expansão, possivelmente sofrerá uma retração, o que desencadeará outro BIG BANG. Se a quantidade de energia é limitada, todos os arranjos possíveis dentro deste universo também são limitados e, dentro destes arranjos tudo que estamos vivendo se repetirá. O demônio ou o anjo pergunta? Sabendo disso, irá ranger os seus dentes e acometido de tal condenação me amaldiçoará? Ou dará graças aos céus, pois tal palavra é uma benécia, uma fortuna ?

 Que as lamúrias se transformem em poesia, música, raiva ou revanche, é exatamente aceitável, mas o que Nietzsche está perguntando é! Sua vida está sendo bem vivida? Está sendo realizada da forma como você quer? Se não estiver, logo negará a possível repetição deste desconforto físico de existir.  No entanto se disser sim, minha vida está sendo bem vivida em toda sua potencialidade e boa ventura, que se repita por toda eternidade. 


Tal questionamento culmina para a genealogia que criticará a tradição judaica cristã. A questão essencial: Se existe um deus, e vamos imaginar que este deus seja verdadeiro e se comunique com as pessoas (sempre aqueles homens escolhidos por uma doutrina de virtude moral), onde está a verdade absoluta? Uma divindade não pode mentir, pois se mentir é um demônio e não divindade. É necessário analisar com acuidade para desvelar os meandros mais sutis da linguagem, até obter uma escuta atenta, para que se possa fazer juízo de razão verdadeira.  Sendo assim a verdade estaria no Baghavad Gita dos Hindus?  No Zend Avesta da Pérsia? Antigo Testamento, onde diz que só estavam salvos os Judeus? Alcorão, eis o último profeta Maomé. Ou no Livro da Lei de Aliester Crowley que diz: “faz tudo o que queres. É todo da lei”. Frase de Agostinho que Crowley transformou no fundamento moral do seu guia infalível para julgarmos se uma pessoa vive intensamente bem ou não.  Fica fácil perceber que este Deus parece está falando a verdade em vários escritos que se dizem sagrados. Nietzsche então dirá que este discurso seja qual for o DEUS, é sempre um discurso moral e histórico, não consiste em um discurso absoluto e eterno. Para este pensador a religião objetiva transformar a moral, que é algo efetivo de um determinado tempo histórico em algo absoluto e universal.  Ou seja: se realmente intermediários escreveram tal verdade absoluta, onde ela se encontra? Ou todos estão certos, daí então somos obrigados a reconhecer uma multiplicidade de Deuses.  Ou todos estão errados, apenas um está certo. E está seria a religião universal.

Por ser filólogo Nietzsche analisou o sentido primeiro de quando se pensou sobre moral, voltando ao sentindo originário das palavras bom e mau, onde há uma distinção de cunho prático.  O sentindo de bom  (ἀγαθὸς- agathos) na antiguidade, desde o Thoth, ou Amenophis IV no Egito Antigo, Grécia antiga, Mesopotâmia, babilônia, etc. Atribuía: belo, rico, potente, corajoso, amado dos deuses e aquele que ama sua vida. Já mau (Κάκος- kákos) atribuía: feio, pobre, impotente, covarde, não ama sua vida e não é amado dos deuses.  

O exemplo mais adequado ao qual Nietzsche faz referência, está no Canto I da Odisséia de Homero que narra à história de tal Ulisses, o nome grego é Odysseus, mas foi traduzido pela tradição latina por Ulisses.  A Odisséia trata-se do regresso de Ulisses pra Ilha de casa após a Guerra de Tróia. Ulisses fingiu está acometido de insanidade, para escapar da Guerra, mas sobre a circunstância de assassinar o seu próprio filho para atestar sua loucura, se provou lúcido. Levado muito à contra gosto, pois em Ítaca tinha uma esposa belíssima chamada Penélope, que recém tinha dado luz ao seu filho Telêmaco.
Ulisses foi quem pensou o Cavalo de Tróia e o seu heroísmo advêm deste feito, que inverteu vantajosamente a posição na guerra contra os troianos.  Terminada a guerra, Ulisses em seu retorno pra Ítaca enfrentou algumas dificuldades no percurso. Fere a visão de um dos Ciclopes favoritos de Poseidon, que como punição obriga Ulisses, que nada mais tinha em mente, a não ser o regresso para Ítaca.  Naufragar na Ilha de Calipso, porção de terra de uma topografia exuberante, na qual reside Calipso uma deusa também exuberante, que logo se apetece pelo herói Ulisses. Além de oferecer a si mesma, Ulisses desfruta das diversas maravilhas da Ilha. Todos os prazeres que consagram o Agáthos, a serviço do mortal afortunado.  Mesmo diante de tais prazeres, que muitos considerariam serem impreteríveis para uma vida boa. Ulisses era acometido por desventura, a falta se fazia presente. A vida boa para Ulisses era sem dúvida em Ítaca, de onde nunca teria saído. 

No entanto, Athena, a deusa dos olhos brilhantes, sente o coração confrangido ao relembrar a sorte do grande Ulisses e pede a Zeus para interferir em seu auxilio. Calipso na iminência de perder o seu mortal tão amado, oferece a Ulisses a eternidade e juventude.  Diante de tal barganha gloriosa.  Zeus, o deus supremo, reconhece um poder que lhe é ainda maior: O destino. Os gregos sabiam que se a humanidade desaparecesse, os deuses também desapareceriam. E Zeus cioso desta realidade. Interviu positivamente na vida de Ulisses, libertando-o de seu cativeiro imposto por Poseidon, fazendo-o retornar para a sua terra natal, a Ilha de Ítaca como assim desejava.

Assim como atesta Homero na figura de Ulisses. Nietzsche compreendeu que os sacerdotes judeus nada mais fizeram do que inverter a moral. O Deus judeu ama, agora quem antes era considerado mau: o fraco, o covarde( a base do Deus, segundo a bíblia, é o temor), o escravo, aquele que despreza o seu corpo passam a ser considerados bons.
A Grécia antiga sempre foi pontuada pela celebração em toda sua potencialidade. Sobretudo quando adota o cristianismo de forma definitiva, é norteadora do dizer cristão. Peca-se agora até em pensamento. Religar-se com a divindade, significa religar-se moralmente à mesma: A moral agora é a base para o alicerce superior, a salvação. Mas de fato, devemos nos salvar de quê? Para maioria das religiões devemos nos salvar das tentações do mundo. O mal está na carne, no corpo que é a passagem para os prazeres que devem agora ser evitados como a própria encarnação do mal em si. Deve-se então abandonar o mundo, o corpo e todos os prazeres que agora são imundos.

Sem mais delongas, só há pecado quando se estabelece um padrão de conduta moral erigido por determinada divindade. E todo aquele que rege sua conduta de forma dissonante, significa agir de modo contrário à divindade. Deverá ser punido, e mesmo que a gravidade de sua ação contrária seja algo cometido numa temporalidade finita. Expurgar-se o mal como o  próprio sofrimento, e um castigo eterno.É realmente muito amorosa essa religião.

Antecipo minhas desculpas - e faço isso com educação para quem se sentir ofendido com algumas coisas escritas aqui.  É da natureza humana se melindrar muito facilmente e este não é, nem de longe, o meu intuito. Golpes de martelo são úteis, mas apenas para os fortes. 


Incipit Tragoedia: Que assim seja!