Kieran Habden ou Four Tet – produtor e musico inglês. É um daqueles artistas
que não compõe a sua trajetória por uma nota só. Muito pelo contrário, dotado
de uma grande potencialidade criativa, suas obras imprimem mudanças constantes
e que lhe conferem um predicado como marca essencial que está presente num tipo
especial de artista; a capacidade de reinventar-se.
Suas composições reverberam o mais amplo domínio da técnica, bom gosto e
uma dose de criatividade assoma-se a uma gama musical muito rica e
diversificada, consagram uma magnitude ímpar. Kieran retira um sumo próprio e mescla
a musicalidade em uma manifestação deveras abstrata – que cria algo diferente
daquilo que é estabelecido como referencial.
Creio que o seu novo álbum lançado recentemente Morning/Evening de grande
bom gosto e maturidade musical, evidencia
tais particularidades. Para tanto, o álbum já bastaria por si só, por render uma
sincera homenagem ao Solstício de verão; época do ano em que o sol incide com
maior intensidade em dos dois hemisférios. O álbum alinha apenas duas faixas: Morning
Side e Evening Side. Os dois lados somam quarenta minutos de duração. E
é aí onde reside a representação e homenagem ao Solstício de verão, que marca o
inicio do verão no hemisfério norte.
Para os povos da antiguidade o
que alcunha diferentes culturas efetuadas pela tradição de cultos em devoção ao
sol; esotéricas, egípcias, fenícios e cosmologia grega. Os solstícios eram
cultuados com uma propriedade divina ou ordem universal. O Solstício de verão
determina que a duração do dia seja a mais longa do ano. Tal fenômeno era para
os povos antigos a crença na permanência da luz do dia como vitória sobre a
escuridão – à noite. Consequentemente a mais curta do ano, em termos de
iluminação por parte do sol.
Por trás deste mundo criativo e simbólico - o primeiro lado e única
faixa Morning Side. Aborda inicialmente uma pegada suave e ao mesmo
tempo dinâmica, grassa uma quietude através do vocal feminino de um agudo
aveludado e sonoridade oriental, adjacente a um minimalismo de variações que se
articulam a novas interações mais contundentes e nos transubstanciam para um
estado longevo, o som ganha propriedade em nossa mente e não mais no sentido da
audição. O êxtase perpassa o segundo lado sem ruptura a linearidade e
permanência que afirmam ainda mais o transcender abrigando harmonia e
equilíbrio em contraparte um instigante quase cômico.
Por fim, para um artista conseguir imprimir sua marca na história de sua
arte, é um fato inestimável que deve possuir acima de tudo: escuta atenta e
capacidade de reinventar-se. O sol de fato decidiu abrir os olhos e iluminar
por mais tempo este artista, que através do poder inigualável da música, não
recua, um instante que seja. Sem duvida, um mestre.

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