segunda-feira, 27 de abril de 2015

POLÍTICA: Razão instrumental- mecanismo inconsciente coletivo











O Iluminismo foi um movimento do século XVIII que alcunhava célebres pensadores como Kant, Rousseau, Newton, Voltaire, Espinosa, Locke Diderot. Uniam-se e defendiam o poder da razão como ferramenta para criticar os intoleráveis abusos da Igreja e do estado. De tal maneira a conduzir o homem a um progresso em diversos campos, objetivando o amadurecimento da sociedade. Libertando-a de preconceitos e superstições. No entanto, o projeto iluminista culmina com a Revolução Francesa e seus desdobramentos subsequentes.    
Parece-me evidente que no nosso país, se comparado com o Iluminismo, por exemplo. Saltamos do primeiro estágio (sem qualquer esclarecimento) - razão crítica, diretamente para o segundo estágio – razão instrumental, ou prática. Isso indica que quase todo o conhecimento é nivelado por baixo, por uma superfície onde a maioria dos discursos trata-se de apelos falaciosos. Em quase todas as conversas que participo e que nós brasileiros travamos sobre os problemas estruturais de nosso país só há uma causa possível, e por unanimidade nacional atestada: a corrupção. Ela logo está arraigada a base de todas as celeumas sociais que vivemos e parece explicar de uma atacada só tudo aquilo que nos impede de ser um país melhor. Creio, contudo, que a questão – seja em uma dimensão macro ou micro político e econômico – repousa em paragens bem mais profundas, em estruturas mais elaboradas e que permitem que algo como a corrupção surja: corrupção, no Brasil, se dá por efeito e não causa.
A corrupção de nossos políticos, por exemplo. Escândalos revelam-se dentro de outros, algo que não mais nos surpreende e justificam de maneira injustificável coisas que só caberiam adjetivos como biltre, pascácio, parvo.  Palavras que também caracterizam todo cidadão médio frente a está circunstância e que se sente oceanicamente distante da mesma, jamais se aventurando em terreno tão escuso – é fruto de uma estrutura econômica e política que só pode existir se a própria corrupção surgir como efeito da mesma, configurando sua própria manutenção e repetição, mesmo que de modo involuntário. A ojeriza de nossa política tão evidente possui origens mais remotas do que meros acordos de interesse. Como dizem hoje em dia: Se entra pra política por mais imaculado que seja se corromperá as más condutas.
De fato, no Brasil, a estrutura econômica é posta em marcha, partindo de uma premissa incontrovertível: beneficiar uma pequena minoria de favorecidos, a elite em sua expressão mais rasteira. Toda a produção é alicerçada a partir de dois pontos cruciais: O primeiro ponto é praticamente uma profecia MARXISTA: A propriedade privada e a possibilidade que esta fomenta para subtrair (roubar) o trabalho excedente do trabalhador em relação ao seu trabalho necessário, produzindo uma mais valia absurda (trabalho não-necessário). O trabalho necessário não consegue  na maioria de nossa população – dar conta das necessidades fundamentais dos trabalhadores. Aqui já temos a base deste fato social. O segundo ponto. O Estado que ultimamente agigantou-se de maneira desordenada e imoral taxa tudo àquilo que o trabalho necessário produz, aumentando ainda mais o fosso entre aquilo que é necessário e aquilo que o trabalho necessário consegue produzir em termos de salário. O trabalho necessário deveria ser garantidor das necessidades naturais e fundamentais de todo ser humano, como rege nossa Constituição no artigo 6, repetindo a Declaração dos Direitos Humanos que reza que “toda pessoa tem direito a um padrão de vida capaz de assegurar a si e a sua família, saúde e bem estar, inclusive alimentação, vestuário, habitação”.  Todos sabem que na prática a história é bem diferente.
              Neste sentido, este mecanismo possui um fim ainda mais nítido e perverso. As relações preconizadas nas teorias administrativas de Drucker, Fukuyama, Senge regem o capitalismo pós-moderno. Num tempo em que politicamente correto é paranóia. Não enxergamos mais a luta de classes, os sindicatos e as greves. As relações de trabalho ficaram em segundo plano. Enquanto mantemos esta elite de parasitas numa zona confortável de riquezas e regalias, envolvendo o cidadão com uma legislação tão burocrática, mais tão burocrática que torna impossível para o mesmo se desvencilhar deste labirinto que se remodela para que não haja uma saída. E quando vem a primeiro plano é impreterível que seja desfavorável ao cidadão. Parece resumir-se a questões hermenêuticas de microfísica do poder.

             O Estado cria impostos, e são muitos – IPVA, IPTU, ICMS, IPI, etc. O cidadão precisa trabalhar quatro meses, mais trabalho excedente (não-necessário), para pagar suas contas e ter seus bens. Tantos impostos não são revertidos numa contraparte clara para beneficio do próprio cidadão, mas em aumentos de salários dos poderes legislativo, executivo e judiciário e toda a máquina que os sustenta, além de articular novas zonas de tráfego de influências através de prestações de favores que burlam esse mesmo esquema – mas só conseguem burlar esse esquema apenas duas classes de cidadão: os próprios políticos e todos aqueles que possuem acesso direto ao funcionamento da máquina. Os outros, coitados, dotados de um senso critico não apurado estão fadados ou a pagar tudo ou entrar no esquema da corrupção menor. E é aí onde entra a corrupção que categoriza-se por efeito e não causa.

                Por mais ilibado que seja um cidadão – e por maior que sejam os valores éticos que rejam a sua consciência moral. O Estado cria tantos mecanismos para dificultar sua vida que, em algum momento, ele vai ser pego com as “calças curtas”. Cria-se um inconsciente coletivo, e coercitivo de uma exterioridade que se justifica por um eufemismo do ato. Seja precedendo vantajosamente ao cidadão ou lesando-o consequentemente.  O  cidadão começa a entender de maneira inconsciente que a corrupção no Brasil é algo natural. Se necessário uma filologia, a corrupção é  nascida conosco desde os primórdios de nossas fundações. Mas essa origem colonial, na verdade, apenas indica que herdamos de Portugal uma estrutura que permite o mesmo: a corrupção se torna desejo de uma necessidade natural de realizar as nossas necessidades fundamentais. Deste modo criam-se os desejos não-naturais e não-necessários, como contra-indicava Epicuro. Desejos tais, que comprometem a convivência.  De repente, você fez amizade com a balconista da padaria e ela põe mais pães pra você.  Um funcionário da Celpe que veio cortar sua energia ou o policial que vai apreender seu. No Brasil não tem como escapar: ou se paga tudo em dias e aí haja trabalho necessário e um salário enorme – ou breve a corrupção baterá em sua porta.
Esse mecanismo inconsciente é importante para de certa forma, justificar o que as esferas superiores de nossa hierarquia social de uma elite retrógrada voltada apenas para si mesma, agem e nos roubam sistematicamente na confluência de interesses, e nos próprios por método pseudo-democrático garantimos que se perpetuem no poder. Creio que se faz necessário estipular algumas regras, ou imperativos categóricos norteados pelo dizer. Age de tal maneira a conduzir que o principio que rege a tua conduta, possa reger a conduta de qualquer um. Desde que erija de uma boa vontade.  Pois Civilização ante qualquer pretexto se traduz por acesso ao conhecimento e educação, a urbanização, ao trabalho, tecnologia,saúde  e dignidade.




Quem delira em grupo, não sabe que está delirando. Eis um mecanismo útil para o homem.  Freud


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